Tradução: “S03E05: The Creepy Candy Coating Corollary (O Corolário da Arrepiante Cobertura Doce)”

Em Catch-22 (Ardil-22), Airman Dunbar passa todo seu tempo livre com pessoas das quais não gosta. Isso faz com que o tempo passe mais devagar, para que ele consiga aproveitar sua vida por mais tempo.

Os físicos têm seu próprio modo de fazer o tempo passar mais devagar. Relógios em movimento contam o tempo mais devagar do que aqueles em repouso. Não porque ocorre algo de errado com o mecanismo de um relógio em movimento, e sim porque a passagem do tempo em si torna-se mais devagar. Este efeito, chamado de “dilação do tempo”, é habitual o bastante para que os roteiristas o usassem numa piada de Leonard sobre o encontro de casais que  parecia não ter fim: “Chegar perto da velocidade da luz não faz o tempo passar mais devagar. Chegar perto deles, sim.”

É tentador usar esse efeito como ponto de partida para discutir como um funcionário de patentes pouco conhecido da Suíça passou todo seu tempo em 1905 pensando em problemas de física (não havia internet ou video games) e previu tudo isso. O funcionário era Einstein e essa era sua teoria especial da relatividade. Normalmente, adoro ensinar a relatividade especial. Adoro ensinar especialmente aos calouros, uma vez que muito pouca matemática é necessária: só é necessário saber que a distância é igual à velocidade vezes o tempo e como funciona um triângulo reto. Ainda assim, não a ensinarei aqui porque realmente não é por causa da teoria da relatividade que acreditamos que o tempo passe mais devagar para objetos em movimento. É verdade, a teoria da relatividade é belíssima e Einstein foi um dos caras mais inteligentes de todos os tempos. Mas as lixeiras dos departamentos de física estão cheias de belíssimas teorias e muitas pessoas brilhantes já foram, há muito, esquecidas. O real motivo de acreditarmos na dilação do tempo é porque é isso que os experimentos nos dizem. É melhor explicarmos melhor um desses experimentos.

Aceleradores de partícula (também conhecidos como colisores de átomos) são ótimos lugares para acharmos coisas que se movem próximas à velocidade da luz. Nos anos 90 trabalhei no maior acelerador de partículas do mundo, um laboratório científico internacional chamado de CERN, como pós-doutor (Um pós-doutorado são os poucos anos na vida de um físico após ele ter recebido o título de doutor, mas antes de ocupar um posto permanente. Apesar de nunca terem afirmado na série, acredito que Leonard, Sheldon e Raj sejam todos pós-doutores.) Quando trabalhava no CERN, meus amigos e eu precisávamos de partículas para testar e alinhar nosso detector. A divisão do acelerador gentilmente nos enviou um raio de partículas denominadas múons. Múons são exatamente iguais aos elétrons, mas são pesados e sofrem decaimento radioativo rapidamente, vivendo em média por apenas 2,2 milionésimos de segundo (0,0000022 segundos). Apesar de esse múons se moverem a uma velocidade próxima à da luz, até mesmo a luz é capaz de percorrer apenas 670 metros em 2,2 milionésimos de segundo. Poderia-se imaginar que quando fossem enviados de um lado do (grande) laboratório pro outro, a maioria dos múons se perderia para o decaimento antes que chegassem. Porém, a “dilação do tempo” nos salvou. Os múons de que precisávamos para calibrarmos nosso detector se moviam a 99,9999% da velocidade da luz e nós observamos que seus relógios internos se atrasavam por um fator de 1000, o que significa que eles tinham uma longevidade 1000 vezes maior. Não havia problemas em levá-los a um ponto seguro e distante do acelerador até nosso experimento, onde fazíamos bom uso deles.

CERN. O maior e mais potente acelerador de partículas do mundo. Seu cano mais longo cruza dois países, França e Suíça.

Se pudesse perguntar a eles, o que acha que os múons responderiam que aconteceu? Eles provavelmente diriam que estavam em repouso o tempo todo, e que fomos eu, meus amigos e o laboratório inteiro que nos movemos em direção a eles a 99,9999% da velocidade da luz. Eles não estão se movendo, então mediriam seu tempo médio de vida em 2,2 milionésimos de segundo; mas então como conseguiram atravessar o laboratório até nosso detector sem que decaíssem? Se perguntasse a eles, os múons descreveriam a distância do laboratório até nosso experimento como sendo 1000 vezes menor do que nós a víamos. Ao se movimentarem a uma velocidade próxima à da luz, os objetos em movimentos se tornam muito mais curtos. Essa “contração do comprimento” é um fato experimental. Ainda que os múons e eu discordemos a respeito do motivo de terem chegado ao meu experimento sem decaírem, ambos concordamos em uma parte: eles chegaram.

Poderia ser a velocidade o segredo da missão de Dunbar em busca da longevidade? Poderiam os físicos fazer uma fonte da juventude ao usarem a velocidade para fazer o tempo passar mais devagar? Sim… Mas há um ardil. Mesmo que você fosse colocado num foguete rápido, já que o tempo passa mais devagar, seu metabolismo ficaria mais devagar também. Tudo ao seu redor sofre a mesma passagem de tempo lenta que o resto de nós presencia. Então Leonard está exatamente certo. Ele veria o tempo passar da mesma maneira que veria se estivesse em repouso. Na verdade, Leonard poderia muito bem dizer que é ele que está em repouso, enquanto todo o resto do mundo está em movimento.

Mas que ardil, esse  Ardil-0,0000022.


Tradução feita por Hitomi a partir de texto extraído de The Big Blog Theory, de autoria de David Saltzberg, originalmente publicado em 19 de Outubro de 2009.

 

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