Tradução: “S03E08: The Adhesive Duck Deficiency (A Deficiência do Pato Adesivo)”

O episódio de hoje de The Big Bang Theory começa com Howard, Raj, e Leonard acampando na expectativa da chuva de meteoros de Leônidas. Seguindo o timing perfeito dos roteiristas para a comédia, a chuva de meteoros de Leônidas está em via de acontecer neste exato momento. O número de meteoros por minuto atingirá seu ápice hoje à noite (às 04:30, horário de Brasília, confira o melhor horário local.)

Mas a história, na verdade, começou antes da cena de abertura do episódio de hoje no deserto… ela começa em 13 de novembro de 1833. Tarde daquela noite, os americanos insones foram saudados pelo céu repleto de feixes de luz. Aquela não foi apenas uma chuva de meteoros, mas, sim, um raro evento com tantos meteoros que é chamado de “tempestade de meteoros”, nome que é dado sempre que o número de meteoros supera a quantidade de 1000 por hora. Naquela noite, em 1833, o número de meteoros superou a quantidade de 1000 por minuto!

Um pastor que viajava, Samuel Rogers, e que já havia acordado às 3h da manhã para se preparar para sua jornada em direção ao oeste, deu seu testemunho:

Algumas daquelas estrelas errantes pareciam tão grandes quanto a lua cheia, ou quase, e em alguns casos elas pareciam correr a alta velocidade pelo curso geral do cerne de meteoros, deixando para trás um rastro de cor azulada, que se condensava em uma fina nuvem, como a fumaça que sai de um cachimbo. Alguns dos meteoros eram tão brilhantes que continuavam visíveis mesmo após o dia amanhecer. Imagine grandes flocos de neve pairando sobre sua cabeça, tão próximos que você consiga distingui-los uns dos outros, e ainda assim tão densos no ar que quase obscurecem o céu; agora imagine que cada floco de neve é um meteoro, deixando para trás uma cauda, como um pequeno cometa; esses meteoros de todos os tamanhos, desde o tamanho de uma gota d’água até o de uma grande estrela, aparentando ter o tamanho de uma lua cheia: somente então você poderá ter uma vaga noção desta maravilhosa cena.

Histórias similares foram relatadas por todo o país. Não havia lua naquela noite, mas o céu estava tão claro que era possível ler com a luz dele.

As teorias se proliferaram rapidamente. No entanto, foi uma observação que explicou o fenômeno, 33 anos mais tarde. No início de 1866, a Guerra Civil dos Estados Unidos havia terminado alguns meses antes, permitindo que o jovem Horace Tuttle, tesoureiro naval, ocupasse um posto no Observatório Naval dos Estados Unidos. Lá, ele rapidamente retornou ao seu objetivo de vida, caçar cometas. Ele logo descobriu um novo cometa que passava diretamente através da órbita da Terra, precisamente por onde a Terra estaria na metade do mês de novembro (já que este é um blog americano, eu convenientemente ignorei o fato de que Ernst Tempel, um caçador de cometas europeu, já o havia encontrado duas semanas antes). As medidas de Tuttle mostraram que, a cada 33 anos, esse cometa, o Cometa 5P/Tempel-Tuttle, deixa seu gélido lar no cinturão de asteroides além de Marte, onde passa a maior parte de seu tempo. Ele ganha velocidade, passa próximo ao Sol e retorna. Mas os cometas são, basicamente, bolas de neve sujas. Quando o Cometa 5P/Tempel-Tuttle se aproxima do Sol, o calor do Sol desprende material de seu núcleo gelado, deixando para trás um campo de detritos no espaço.

Os detritos orbitam o Sol na mesma trajetória que o cometa, no que é chamado de “enxame de meteoroides”. Raj nos conta o que acontece em seguida: “Os meteoros não vêm pra cá. É a Terra que move-se em direção à sua trajetória.”. Todo ano, na metade do mês de novembro, nós, Terráqueos a bordo da nossa “Nave Terra”, passamos bem no meio do campo de detritos deixados para trás pelo Cometa 5P/Tempel-Tuttle. Os meteoroides entre os detritos não ficam parados, eles viajam em sua própria órbita, seguindo a trajetória do cometa. O encontro da Terra e dos meteoroides é igual a uma clássica colisão lateral de carros:

A causa da chuva de meteoros de Leônidas: (1) O Cometa 5P/Temple-Tuttle se dissolve, em parte, à medida que se aproxima do Sol, (2 & 3) Os detritos formam um enxame de meteoroides (4) A Terra passa através dos meteoroides, ocasionando a chuva de meteoros de Leônidas. (Figura de Chaisson & McMillon: A Beginner's Guide to the Universe.)

Os meteoroides são, em grande parte, pequeninos, como grãos de areia. Apenas quando entram na atmosfera terrestre, a velocidades de cerca de  65 quilômetros por segundo, eles brilham e se incendeiam. A luz brilhante, o “meteoro”, se dá quando o ar e o silício quentes, assim como outros metais no meteoroide, brilham por causa do calor. Repare nesses termos: o grão de areia é um “meteoroide” — ele não se torna um “meteoro” até que esteja quente e brilhando na atmosfera terrestre. Se um pequeno objeto, como uma rocha, atinge o solo, então ele é chamado de “meteorito”. E apesar do que uma criança de 5 anos possa afirmar, eles definitivamente não são “estrelas cadentes”.

Não é necessário muito ar para que o meteoro brilhe. Quando você vê meteoros, eles estão a uma altitude tão elevada, que o ar lá é menos denso do que uma parte em 100.000 do ar que respiramos. Vivemos no nível mais baixo da atmosfera, onde estão localizados o ar e o clima mais densos, a “troposfera”. Aviões voam a uma altura de cerca de 10.700 quilômetros acima da troposfera, um pouco abaixo da estratosfera. Um nível muito alto da atmosfera fica a cerca de 83.800 quilômetros. Essa camada, a “mesosfera”, é onde os meteoros se formam. Os cientistas dão a ela outro nome: “A Ignorosfera”. Isso ocorre porque ela raramente é estudada. É muito baixa para se enviar um satélite, pois o atrito da pequena quantidade de ar destruiria sua órbita. Mas é muito alta para se enviar balões científicos, pois não há ar o bastante para sustentar a flutuação. Um amigo meu a estuda da única maneira possível de se chegar lá, enviando foguetes de pesquisa. Mas tais foguetes passam apenas de 5 a 10 minutos naquela região antes de caírem, então temos poucos e preciosos dados diretos. (Meu amigo não ficou nada contente durante a 1ª temporada, quando Sheldon encarou como uma grave ofensa o fato de sua irmã tê-lo chamado de cientista de foguetes.)

A tempestade de Leônidas de 1833 desempenhou um papel fundamental para que entendêssemos que eram os meteoritos no espaço que causavam os meteoros. Alguns suspeitavam que meteoros eram um fenômeno atmosférico, e duvidavam que havia rochas e pedras no espaço.  Quando dois fazendeiros do Norte alegaram ter visto um meteoroide cair do céu em sua fazenda, Thomas Jefferson disse:

Eu prefiro acreditar que dois fazendeiros Yankees mentiram a acreditar que rochas caem do céu.

Entretanto, os meteoros da tempestade de 1833 vieram de um lugar no céu que se movia com as estrelas. Na verdade, vinham da direção da constelação de Leão, daí o nome “Leônidas”. Uma vez que seu ponto de origem não era fixo na atmosfera e se rotacionavam junto com a Terra, isso demonstrou que os meteoros eram iniciados por objetos vindos do espaço. Mas não precisa se sentir mal por Thomas Jefferson, esse foi apenas um dos muitos equívocos que ele cometeu.

Os astrônomos predizem que, este ano, as Leônidas devem dar um excelente show hoje à noite. Tente sair da cidade para vê-las. Acampe de um dia para o outro, se puder. Mas tenha cuidado! Haverá professores de ciência soltos por aí.


Tradução feita por Hitomi a partir de texto extraído de The Big Blog Theory, de autoria de David Saltzberg, originalmente publicado em 16 de Novembro de 2009.

 

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