Tradução: “S03E11: The Maternal Congruence (A Congruência Materna)”

Hoje aprendemos que a mãe de Leonard, Beverly Hofstadter (interpretada por Christine Baranski),  e Sheldon têm colaborado na teoria da Dinâmica Cerebral Quântica. Essa teoria tenta explicar a origem da consciência. Se a teoria da Dinâmica Cerebral Quântica estiver correta, nossos cérebros não são meras máquinas de calcular, apenas com complexidade suficiente para termos audição, visão, paladar e tato. Ao invés disso, nossos cérebros se alicerçariam na natureza não-determinista da mecânica quântica para gerarem a consciência humana. Se isso for realmente necessário para que nosso cérebro esteja consciente, então a teoria diz que nenhum computador convencional poderia, algum dia, emular nossas percepções e experiências humanas.

Será que algum dia os computadores terão consciências humanas?

Tal teoria do cérebro pode tornar-se atraente por algumas razões. Primeiramente, suponhamos que consideremos nossos cérebros como nada mais que um computador chique com um sistema operacional ligeiramente melhor que o Windows. (No meu caso, um Windows-67, que ainda funciona melhor que o Vista, ainda bem). Isso pede um questionamento perturbardor. Será que, em breve, nossos laptops tornarão-se suficientemente sofisticados, ao ponto em que passarão a ter uma consciência? No caso afirmativo, será que nossas próprias consciências humanas começarão a ser fabricadas nas linhas de produção chinesas?

Em segundo lugar, no tratamento acadêmico padrão da mecânica quântica, os observadores desempenham um papel especial. O gato de Schrodinger pode estar simultaneamente vivo e morto até que um observador dê uma olhada e “colapse” a função de onda do gato em um estado 100% vivo ou 100% morto. Na mecânica quântica, as probabilidades de encontrarmos o gato vivo ou morto são precisamente calculáveis, mas analisando as situações caso a caso, é impossível prever que tipo de gato iremos encontrar. Mas o que é uma observação? Se um átomo colidir com alguma outra partícula, dizer que o átomo “observou” a outra partícula parece não fazer sentido; faz mais sentido simplesmente dizer que tanto o átomo como a partícula agora fazem parte de um sistema maior. Mas quando é que as interações tornam-se complexas o bastante para causar o “colapso” em uma condição definida, a de vivo ou morto? Os teóricos da Dinâmica Cerebral Quântica afirmam que a consciência do observador desempenha um papel fundamental na medição, e que a própria consciência é, por si só, um processo quanto-mecânico.

Os teóricos da Dinâmica Cerebral Quântica seguem propondo, até mesmo, que alguns processos quanto-mecânicos podem estar ocorrendo num cérebro humano vivo. Nos laboratórios modernos, se for tomado um cuidado extremo e as amostras forem colocadas em temperaturas muito baixas, é possível ver os efeitos quânticos. Cuidadosas técnicas laboratoriais podem conduzir os átomos a um novo estado da matéria chamado de “Condensado de Bose-Einstein”, no qual muitos átomos permanecem no mesmo estado quântico exato e exibem um comportamento quântico em grande escala. Passaram-se 70 anos desde a época em que esse estado foi previsto até o dia em que ele finalmente foi produzido em um laboratório. Foi necessário que os pesquisadores tivessem a habilidade de produzir temperaturas de menos de um milionésimo de grau acima do zero absoluto para que a consecução fosse atingida. Muitos tentaram e falharam. Finalmente, o eventual sucesso foi reconhecido pelo Comitê do Prêmio Nobel como uma conquista tão grande, que os poucos que a conseguiram receberam o Prêmio Nobel da Física em 2001. Os teóricos da Dinâmica Cerebral Quântica cogitam a ideia de que o mesmo tipo de condensado possa existir no cérebro humano vivo, à temperatura corporal normal.

Parece bastante improvável? Para mim, pareceu. Então eu fiz algumas pesquisas. A quantidade de material publicado em periódicos científicos renomados é pequena. A maioria do que achei estava publicada em páginas da internet e pequenas editoras, o que é um alerta. Mas não tão rápido. Roger Penrose, um físico-matemático altamente respeitado, inventor dos quasicristais e outras ideias importantes, é um adepto da teoria. Penrose sugeriu em seu livro “The Emperor’s New Mind” (A Mente Nova do Imperador) que o “colapso” ocasionado por observações não se baseia em nenhum algoritmo, sendo, portanto, distinto daquilo que um computador mecânico poderia desempenhar. Uma vez que não há um método que descreva o passo-a-passo do “colapso”, as dificuldades matemáticas fundamentais desaparecem convenientemente. Existem alguns trabalhos sobre essas ideias publicados pela Springer, uma editora que publica trabalhos científicos sérios. Geralmente, as ideias sobre como o mundo funciona separam-se claramente entre correntes principais (mesmo se forem só especulação) e asneiras sem sentido. Neste caso, a distinção não é tão clara.

Os roteiristas haviam colocado a Dinâmica Cerebral Quântica no roteiro, o que me deixou um pouco ansioso. Será que milhões de telespectadores seriam contrariados? Será que enviariam milhões de emails reclamando que a série havia confundido pseudociência com ciência de verdade? Será que fariam um boicote aos patrocinadores? Mas como já vimos, a ideia, ainda que radical, não poderia ser rejeitada completamente de maneira justa. Os roteiristas deram um jeito. Preste atenção ao diálogo do episódio dessa noite. Os roteiristas não fizeram com que Sheldon e Beverly estivessem simplesmente trabalhando juntos em cima da teoria da Dinâmica Cerebral Quântica, e sim desacreditando a teoria da Dinâmica Cerebral Quântica. Problema resolvido.

Eu não fico à espreita dos roteiristas enquanto trabalham, mas eles conversam comigo durante o processo. Uma das coisas que aprendi é que uma boa parte de escrever comédia gira em torno de resolver problemas. Por exemplo, como você faria para que duas pessoas que estivessem brigando, da última vez que as viu, voltassem a se falar para que você pudesse terminar a história? Da mesma maneira, os físicos também são guiados em seu trabalho por uma grande ideia, e inevitavelmente encontram obstáculos que os impedem de contar uma história consistente. Encontrar soluções inteligentes parece ser um trabalho que os teóricos e roteiristas de comédia têm em comum. Em um exemplo da física, um dos maiores problemas que a física de partículas teórica enfrenta atualmente é que muitos modelos preveem que os prótons decaem em menos de um segundo — por essa teoria, o Sol, a Terra e os seres humanos nunca existiriam. Algo tinha que ser feito. Os teóricos de partículas finalmente resolveram o problema inventando (ou seja, “fazendo de conta que existia”) algo chamado de “Paridade-R” que não poderia ser mudada, visando a impedir o decaimento dos prótons. O tema agora aparece em muitos, ou na maioria, dos modelos teóricos na física de partículas. E de maneira similar às soluções dos roteiristas de comédia, pode ser que a “Paridade-R” seja, na verdade, uma piada.


Tradução feita por Hitomi a partir de texto extraído de The Big Blog Theory, de autoria de David Saltzberg, originalmente publicado em 14 de Dezembro de 2009.

 

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Uma resposta to “Tradução: “S03E11: The Maternal Congruence (A Congruência Materna)””

  1. Luiz Felipe Says:

    Prezada Hitomi,

    Meu nome é Luiz Felipe, sou formado em Direito e estou estudando para prestar o concurso para diplomacia; como você, sou também um concurseiro. Já acompanhava o Big Blog Theory original quando tive a “brilhante e original” idéia de contatar o autor e pedir permissão para traduzir semanalmente seus posts – inclusive no intuito de exercitar meu inglês, que me é muito útil para a prova.

    Naturalmente, ao entrar no blog dele (Acompanho normalmente pelo google reader) percebi que a idéia era mesmo brilhante, mas nada original. Nesse sentido, contato-a para duas coisas específicas:

    1) Parabenizá-la pela ótima iniciativa;
    2) Oferecer-me a colaborar com a tarefa.

    Não tenha experiência voltada para a tarefa, mas possuo fluência no idioma, morei fora do Brasil por um ano, leio bastante em inglês (a título de exemplo cito a coleção completa de Sherlock Holmes).

    Enfim, fico a disposição. Um abraço,

    Luiz Felipe

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