Tradução: “S03E15: The Large Hadron Collision (A Grande Colisão de Hádrons)”

No episódio desta noite, Leonard descobre que foi convidado para o Grande Colisor de Hádrons, “o LHC”. Caso isso aconteça com você, coloquei um prático dicionário de frases no fim do post. (Ou então leve-o com você se fizer uma excursão grátis ao CERN, aberta ao público). Antes, porém, apesar de o LHC ter tido uma cobertura de imprensa de um bilhão de dólares nos últimos dois anos, pode haver alguns telespectadores que ainda não sabem que o LHC é o maior “esmagador de átomos” já construído.

“Esmagador de átomos” é um termo peculiar dos anos 50 para designar um “acelerador de partículas”. Os aceleradores de partículas produzem colisões de “alta energia” para pessoas como eu, os “físicos de alta energia”. Como benefício adicional, eles também produzem a luz vísivel e as fontes de raios-X mais brilhantes disponíveis para o estudo de novos materiais e sistemas biológicos.

O quão alta é a “alta energia”? O LHC foi projetado para produzir colisões de prótons que foram acelerados por 7 trilhões de volts. Isso parece ser muita coisa. Mas quanto? Quando dois desses prótons colidem, eles têm a energia que você obteria ao comer 0,00013 microgramas de uma barrinha de doce.

Isso não é lá tanta energia para uma máquina famosa por recriar o Big Bang. Há colisões de energia muito maior em uma calçada de Manhattan. O ponto principal é que os físicos de alta energia dão atenção à quantidade de energia por partícula. Colisões nas estradas, ou mesmo entre uma bola de baseball e um bastão, são colisões com objetos que contêm mais de 1027 (1 seguido por 27 zeros!) partículas. Então qualquer um dos prótons presentes na colisão entre dois carros tem energia muito baixa, se comparada à energia no LHC.

Uma bola e um bastão produzem uma colisão com energia muito maior que a do LHC. Contudo, o que importa é a energia por partícula.

 

Mesmo a analogia de “máquina do Big Bang” é um pouco inadequada. As colisões não fazem uma réplica do Big Bang em alta temperatura. A colisão entre duas partículas mal é suficiente para que se considere que sequer exista qualquer temperatura. (Algumas reações que ocorreriam em fluídos a altas temperaturas não podem acontecer no LHC, que conta apenas com duas partículas colisoras, mesmo que elas ocorram com energia suficientemente alta… para solucionar esse problema, alguns físicos irão, algum dia, usar a máquina para colidir núcleos grandes, mas a fronteira da alta-energia é a colisão de prótons individuais.)

Talvez a descrição mais adequada, ainda que menos sensacionalista, seja uma bem antiga: Aceleradores de alta energia são microscópios gigantes. Uma profunda lei da física é a de que quanto maior for o momentum de uma partícula, menor será o tamanho no qual conseguiremos enxergá-la. Alta energia significa um alto momentum, e seguindo esse caminho por alguns séculos, chegamos ao Grande Colisor de Hádrons.

Microscópios Ópticos: Os artesãos que faziam lentes em Flandres, há mais de 400 anos, inspiraram Galileu a combinar lentes para a construção de um telescópio para estudar os céus. Uma leve recombinação da óptica produziu o microscópio, produzindo imagens de estruturas biológicas muito pequenas a olho nu, na escala de um milionésimo de metro, ou um “micron”.  O menor tamanho vísivel de uma estrutura é ditado pelo “tamanho” da luz visível, cerca de meio micron. Mas um “micron” é enorme em proporções biológicas, e até mesmo atômicas. Mal se pode enxergar qualquer das estruturas do núcleo de uma célula viva.

Microscópios Eletrônicos: No começo do século 20, uma epidemia de poliomelite percorreu o mundo. Em 1% das infecções, a poliomelite deixava as crianças paralisadas pelo resto da vida. Os microscópios ópticos não eram capazes de fornecer imagens do vírus da poliomelite. Então os engenheiros alemães colocaram em prática a regra da física que diz que um momentum maior significa acesso a um tamanho menor. Ao bombardear uma amostra com elétrons de alta energia, o vírus da poliomelite pode ser visto. (As imagens das estruturas são em preto e branco. Não há sentido em perguntar a cor de algo tão pequeno que nem mesmo a luz consegue responder. Mas como Ted Turner, os físicos frequentemente fazem uma colorização de suas imagens.) Ao passar dos anos, a tecnologia avançou ao ponto em que mesmo as localizações de átomos individuais podem ser medidas a 0,000000000050 metros.

Os elétrons acelerados permitem que sejam feitas imagens do poliovírus, que causa a poliomelite (a colorização é falsa). Ele é muito pequeno para ser visto com um microscópio óptico normal.

O Grande Collisor de Hádrons e outros aceleradores recentes são sensíveis o bastante para oferecer a possibilidade de olhar dentro de um próton. Estruturas de 0,000000000000000001 metros (isso significa um bilionésimo de um bilionésimo de metro) são rotineiramente estudadas por físicos de alta energia como Leonard.

Fundado logo após a Segunda Guerra Mundial, o CERN utilizou a física como prova da união europeia em suas buscas pacíficas. Trabalhei alguns anos no CERN, o lar do Grande Colisor de Hádrons. O inglês é a lingua franca no CERN; contudo, por ser falado lá há quase 40 anos, o inglês falado nessa ilha, rodeada pelas zonas rurais falantes de francês da França e da Suíça, evoluiu para seu próprio dialeto. Caso você, assim como Leonard, for convidado ao CERN, aí vão algumas frases que lhe ajudarão a falar o dialeto do CERN:

Como que isso se parece?“: Quando estou fazendo uma apresentação sobre algum trabalho científico, muitas vezes me vejo perguntando, retoricamente, a mim mesmo sobre os dados, escolhendo entre “Como isso parece?” ou “Com o que isso se parece?”. No dialeto do CERN, essa oração híbrida significa que você nunca tem que escolher.

Lucrar: Em francês, o verbo profiter significa “tirar proveito de”. Isso permite uma construção muito mais eficiente, como “Vamos lucrar com a luz do sol e comer porta afora”.

Inglês Britânico: Por algum motivo, o inglês ensinado nas escolas europeias ainda parece ser o inglês britânico, e não o americano. Então use “autumn” ao invés de “fall” (Nota de Tradução: ambas palavras são sinônimos que significam “outono”), nunca use “how come?” ao invés de “why?” (Nota de Tradução: ambas expressões têm o mesmo sentido de “por que?” ou “como assim?”) e assim por diante.

Evite o ‘s: Vamos encarar a verdade, o “apóstrofe -s” é difícil de ouvir, e até mesmo os falantes nativos de inglês fazem uma bagunça com as regras para seu uso. Esse também não é o tipo de construção que tem uma estrutura correspondente em muitos outros idiomas (Nota de Tradução: o português é um desses idiomas que não têm uma estrutura correspondente; por esse motivo, as duas orações que servirão de exemplo nessa passagem podem ser traduzidas exatamente da mesma maneira para o português.). A oração “Let’s go to John’s lab and look for Mike’s screwdriver” (Vamos ao laboratório do John para procurar a chave de fenda do Mike) é algo que você provavelmente não ouvirá no dialeto do CERN. Ao invés disso, diga “Let us go to the lab of John and look for the screwdriver of Mike”, se quiser ter a certeza de que foi entendido.

Substitua palavras específicas do inglês com palavras do francês: Ocasionalmente, a palavra em francês é substituída diretamente por algum outra em inglês. Por estar localizado na fronteira franco-suíça, trabalhar no CERN fará com que atravesse a fronteira várias vezes ao dia. “Customs Officer” (Oficial Aduaneiro) é uma expressão da qual irá precisar, mas assim ela fica esquisita. Substitua por douanier.

No que concerne…: As orações nem sempre ficam mais curtas. Se você tem indagações concernentes ao seu  rastreador de partículas, não diga “No concernente ao rastreador…”, e sim “Naquilo que concerne ao rastreador…”

Toilet (Privada): Uma palavra que evitamos na conversa polida em inglês corresponde a uma expressão bastante educada em francês: faire la toilette (“ir ao banheiro”). No CERN, não “vá ao banheiro”. Lá não há nenhuma banheira mesmo. Quando a natureza chama, você pode muito educadamente “ir à privada”.

Para maiores informações, visite essa ótima página de Francois Briard, um funcionário do CERN que se envolve bastante com o atendimento ao público. Ele também me enviou um link com alguns vídeos divertidos.

É claro que qualquer um dos rapazes tem amigos na universade que lhe conseguiriam acesso ao laboratório do LHC e a vários outros lugares fechados ao público durante o passeio turístico. Mas passagens para a europa, um local para ficar, e, principalmente, gasolina europeia para ir aos lugares não são baratos. Então o entusiasmo que eles sentiram era bastante apropriado.

Agora é hora para uma parada para a “privada”.

P.S.: Por mais de uma década, na minha disciplina de Física de Alta-Energia, sempre fiz aos alunos a seguinte pergunta: “Sempre que um novo acelerador é ligado, aparecem alguns palhaços que dizem que irá destruir a Terra e/ou o Universo. Explique porque é provável ou improvável que isso aconteça.” E não deu outra, o mesmo aconteceu quando o LHC foi ligado. Um ponto crucial que quero que meus alunos percebam é que a natureza tem partículas com energia muito maior, realizando colisões com energia muito maior, a todo nosso redor. Basicamente, esses caras estão tentando incitar o medo com uma atração sensacionalista. Agora, a incitação ao medo e a atração sensacionalista, por si só, não estão erradas. Sempre há brechas. Então é logicamente incorreto dizer que um desastre é absolutamente impossível, como alguns de meus colegas disseram. (Ou, ao menos, o que a mídia disse que eles disseram). Na verdade, é logicamente possível que, a qualquer momento, algo que você faça na cozinha possa criar gelo-nove. Então acho que alguns físicos deveriam tomar cuidado e deixar de dizer que é “absolutamente impossível” quando o que querem mesmo dizer é que “é ridiculamente estúpido”.

P.P.S.: Dito tudo isso, tenho uma camiseta que diz “Eu sobrevivi ao Grande Colisor de Hádrons em 10/09/2008”.


Tradução feita por Hitomi a partir de texto extraído de The Big Blog Theory, de autoria de David Saltzberg, originalmente publicado em 8 de Fevereiro de 2010.

Tags: , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: